“Não sobra dinheiro”, conta a técnica de enfermagem Marta Maria da Silva, de 47 anos. Ela mora em Sirinhaém e trabalha no Hospital de Palmares e mesmo vivendo fora da região metropolitana, não dá conta do custo de vida. “Tenho um filho de 20 anos que não trabalha e cuido da minha neta. Tenho que escolher entre lazer e comida e nem dá pra variar, comprar algo diferente como um queijo”, relata. Para tentar cobrir as despesas, Marta recorre ao cartão de crédito. “Todo mês escolho o que vou pagar e vou empurrando o resto”, diz. Segundo o Instituto Locomotiva, 60% das dívidas dos brasileiros são no cartão.
A auxiliar de produção Rosimere Nascimento vive a mesma situação. “Recorro à família, meu salário não cobre. Se tivesse filhos, estava passando fome”, diz. Já o enfermeiro Mateus dos Santos vive em Barreiros e trabalha no Recife. Apenas desse esforço, o salário não é suficiente. “Atualmente sou professor do ensino técnico e complemento a renda dando apoio a artigos científicos. Sem o bico, não consigo”.
São nos grandes conglomerados urbanos onde estão os maiores custos de vida. Na Região Metropolitana do Recife (RMR) vivem em torno de 1,5 milhão de pessoas e viver em áreas urbanizadas exige custos inerentes ao formato, como o transportes e o valor de aluguéis imobiliários em bairros mais procurados. Falando nisso, o economista e professor da Uninassau Sandro Prado explica que a demanda por moradia não para e como se trata de um dos metros quadrados mais caros do país, vive-se um paradoxo.
“A realidade é renda menor por membro da família e uma dificuldade grande para essas pessoas terem o básico. Os cursos são muito elevados. Em Brasília, por exemplo, o custo de vida é alto, mas a renda também é maior. No Recife, temos um custo elevado, um dos mais elevados, e esse paradoxo de uma renda per capita mais baixa. Uma discrepância muito grande. A classe médica quase não existe em Pernambuco: ou são pessoas que têm dinheiro ou muito empobrecidas”, analisa.
Prado chama atenção para a desigualdade social do Recife e de sua região metropolitana. Os grandes prédios da orla de Boa Viagem são uma realidade distante mas a apenas três quarteirões de comunidades em situação de pobreza. “Em casos assim, o poder público precisa ter mais condições de oferecer serviços. Saúde, educação, subsídios ao transporte, lazer acessível. Se você ganha menos, o estado precisa suprir. Quando se ganha mais, deixa de depender”.
CÁLCULOS
Para dar suporte às pessoas de baixa renda, as políticas de transferência de renda são essenciais - e elas entram no cálculo da renda per capita feito pelo censo do IBGE. Assim, Bolsa Família e outras possibilidades de assistência como o Benefício de Prestação Continuada (BPC) são adicionados à soma.
“Tudo isso entra como renda. Se não fossem eles, seria ainda pior. Há uma ‘guerra’ entre os estados porque o Norte e o Nordeste demandam mais assistência. É um assunto sempre debatido. Mas somos uma região empobrecida que precisa mais da presença do estado”, defende.
COMIDA NA MESA
Um dos pontos que encarece ou barateia o custo de vida de uma família no Brasil é o percentual destinado à alimentação. Como disse Marta, no início desta matéria, se for para priorizar, a comida vem em primeiro lugar. Mas se o alimento não tem produção local, ele fica mais caro ao consumidor final; se é produzido aqui, chega mais barato. O tomate e o ovo são exemplos, respectivamente. O ovo de Pernambuco é um dos mais baratos do país porque o estado tem uma produção que atende à sua demanda local.
Segundo o economista, Pernambuco tem a vantagem de ser um estado bem localizado geograficamente e dispor de portos, o que torna o estado interessante para empresas que visam o mercado externo.
“Mas quando você vai ver o mercado interno, a configuração muda. Quanto mais empobrecida é a população, menos interesse as empresas têm de investir, principalmente as do ramo varejista. Afinal, é uma população com pouco poder de renda”, pontua. E tentando reverter esse cenário, a lógica tem sido a cessão de incentivos tributários para tornar o estado mais competitivo.